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Anamaco: qualidade de dados é um caminho sem volta para a construção civil

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Waldir Abreu, da Anamaco. Foto: divulgação

Seja pela geração de emprego e renda ou pelos impactos gerados no Produto Interno Bruto (PIB) de um País, a construção civil é um dos setores mais importantes para uma nação em desenvolvimento.

E com o Brasil não seria diferente. Entretanto, apesar da força e essencialidade do setor, ao que parece, a percepção do governo nacional sobre ela ainda é insuficiente, segundo comentou, em entrevista ao Portal de Notícias da GS1 Brasil, o superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Waldir Abreu. “Ao interromper obras, não se geram empregos e as pessoas consomem apenas para sobreviver, não tendo capital para reforma ou compra de um imóvel”, justica.

Neste bate-papo, além de comentar a relevância e projeções para esse segmento da economia, o executivo mostrou como a qualidade de dados é um caminho sem volta para aqueles que atuam na área. “A acuracidade de dados, agilidade de informação e fonte seguras de dados daria ao setor a possibilidade de um posicionamento muito mais firme na hora de discutir políticas públicas com os diversos ministérios”, aponta.

Acompanhe, a seguir, a entrevista na íntegra.

Qual a força do setor de construção civil no País? Quanto esse mercado cresce e movimenta anualmente?

A importância do setor é muito grande. Contudo, a percepção do governo para essa força ainda é pequena. Em 2020, o PIB brasileiro alcançou R$ 7,4 trilhões, enquanto o PIB da construbusiness (que engloba toda a cadeia produtiva da construção) não passou de 8%. Em 2008, já chegou a representar 12%. Isso significa que a construção passou a perder importância ao longo dos anos.

Isso acontece por uma série de fatores. O governo brasileiro traz uma incerteza grande para os envolvidos. Afinal, ele [governo] é o grande contratante para obras de infraestrutura. Mas quando não se tem um plano concreto e as obras são paralisadas por algum motivo, deixa-se de acreditar no setor.

Esse cenário de falta de continuidade de obras, somado à atual realidade econômica, e a insegurança jurídica, acabam prejudicando o segmento.

Tudo isso gera um ciclo negativo, já que ao interromper obras, não se geram empregos e as pessoas consomem apenas para sobreviver, não tendo capital para reforma ou compra de um imóvel.

Como foi o desempenho do setor diante da pandemia?

O isolamento social, que obrigou as pessoas a ficarem mais em casa, gerou um reflexo positivo para a construção civil. Seja para deixar o ambiente mais agradável ou para uma reforma necessária, foram muitos os que aplicaram capital nesta área, mas muito aquém do que seria adequado para o setor.

Em 2020, crescemos 11% no faturamento, mas notamos que esse resultado se deve mais ao reajuste de preços do que aumento de volume. E até 30 de setembro de 2021, alcançamos alta de 8%, mas desde agosto constatamos que as vendas estão estabilizadas.

No pós-pandemia, espera-se que a força desse setor aumente?

O lado otimista é sempre ter essa esperança, mas a realidade é contrária: temos 14 milhões de desempregados, perda de poder aquisitivo e elevação de preço das matérias-primas e, consequentemente, dos produtos.

Apesar do cenário, temos de concordar que a população é grande, e sempre teremos demanda. Sempre tem há alguém reformando, mesmo que seja por obrigação de manutenção. Mas esse setor cresce pela sua essencialidade nata e não porque existe um cenário favorável para tal.

Para 2022, em que teremos um ano eleitoral, é de praxe que se façam muito mais obras governamentais, porque elas garantem visibilidade imediata, o que traz um impacto positivo para o setor. Contudo, temos de aguardar para ver como será essa continuidade pós-eleições.

Falando sobre qualidade de dados, como o sr. enxerga a importância deste mecanismo para o setor de construção civil?

É bizarro o que temos no varejo da área de materiais de construção. Nós próprios temos de gerar nossas fontes de dados.

As fontes de dados oficiais são muito postergadas, então o que aconteceu em julho, você sabe em setembro. Por exemplo: estou até agora esperando o fechamento da RAIS do ano de 2020 para saber o número de CNPJs que continuam ativos no varejo de materiais de construção. Estamos em novembro de 2021 e não tenho o dado oficial do ano passado.

Diferentemente de varejo alimentar, que você tem auditorias e uma série de indicadores, que mostram crescimento mensal ou trimestral, o varejo da construção e indústria de construção civil como um todo é muito carente de informações precisas de dados.

Por que isso acontece?

O setor é grande e muito desarticulado. Temos entidades demais e resultados e serviços de menos. São muitas informações vindas de várias áreas e conflitantes entre si. Por isso decidimos, na Anamaco, contratar a Fundação Getulio Vargas (FGV) para fazer todas as avaliações e termos o mesmo banco de análise e mesma fonte de informações, além de um panorama que nos permita enxergar indústria e varejo.

De que forma a qualidade de dados beneficiaria os envolvidos no segmento?

O benefício é ter uma representatividade melhor. Mostrar, através de indicadores, em curto espaço de tempo, o que vai bem e o que vai mal nas relações institucionais e governamentais.

A acuracidade de dados, agilidade de informação e fonte seguras de dados daria ao setor a possibilidade de um posicionamento muito mais firme na hora de discutir políticas públicas com os diversos ministérios.

Nos daria mais força para mostrar que o governo brasileiro precisa, efetivamente, focar na construção civil. É uma atividade que contrata muito rápido, qualifica pessoas em canteiros de obras, gera renda e riqueza, desenvolve o País e cumpre uma missão que é muito importante: não há cidadania sem habitação.

Esse cenário em relação ao uso de dados na construção civil tende a mudar ao longo do tempo?

A utilização, nas construtoras, do Building Information Modeling (BIM); a utilização, no varejo, de sistemas de gestão que dão mais indicadores de desempenho (os famosos KPIs de evolução de gestão) são caminhos sem volta.

Para isso, precisa-se ter muito mais aplicação de ferramentas de inteligência digital e utilização de dados digitais. Na esteira disso tudo, a contribuição dos código binários; e dos QR Codes, que permitem a descrição correta dos produtos; além do Cadastro Nacional de Produtos (CNP) muito bem executado entre indústria e GS1 Brasil e que se refletem no varejo, são questões fundamentais.

De que forma a falta de qualidade de dados também pode prejudicar o consumidor?

Os consumidores finais são prejudicados quando não há a informação correta e entram em conflito com aquilo que querem comprar e efetivamente recebem. Isso também envolve segurança e qualidade dos produtos.

O aumento das atividades do e-commerce registradas na pandemia também fizeram crescer a importância da qualidade de dados no setor?

Sim, mas no varejo de material de construção, o que temos de pesquisas relativas ao ano de 2020 ainda mostram que a carência do nosso varejista em ter muitos negócios presenciais, não deram aos que investiram em e-commerce e marketplaces os resultados que precisam ter para manter a loja eletrônica viável.

Os canais eletrônicos geram pouco resultado e os pontos de venda físicos ainda são fundamentais para o negócio. Ainda vai levar um tempo para o e-commerce e o digital ser tão rentáveis para reduzir o tamanho das lojas.

Na sua visão, como a qualidade e inteligência de dados devem ser determinantes para o futuro dos negócios de qualquer setor?

Ele é determinante porque você consegue ter uma informação rápida e precisa onde quer que se esteja. O consumidor localiza rapidamente o produto e o recebe na mesma velocidade. Isso resolve o grande problema que temos que é a utilização adequada do nosso tempo e dos nossos recursos.

Foto: iStock

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