Escreva para pesquisar

Conheça a cultura de inovação da Embraer

A Embraer é considerada uma referência no mercado quando o assunto é inovação. Mas quais são os principais pilares que sustentam esse espírito inovador?  A reportagem do Portal de Notícias da GS1 Brasil conversou com Thiago Yamabuchi, líder da área de Startup Ecosystem & Innovation Culture da Embraer, sobre a cultura de inovação da companhia e como funciona o relacionamento com as startups.

Fundada em 1969, a Embraer é uma das maiores companhias de jatos comerciais do mundo. Com sede em São José dos Campos (SP), possui unidades industriais, escritórios e centros de distribuição nas Américas, Europa, Ásia e África e atua nas áreas de aviação comercial, executiva, agrícola e defesa.

A companhia investe anualmente quase 10% da sua receita em pesquisa, desenvolvimento, inovação e melhorias industriais – percentual acima da média mundial, que é de cerca de 4,5%.

thiago yamabuchi da embraer

Thiago Yamabuchi, da Embraer

Thiago explica que os investimentos em inovação são estruturados de três maneiras na Embraer: em mercados e/ou produtos nos quais a empresa já atua, em novos mercados e/ou produtos, além dos investimentos em inovações totalmente disruptivas, usando tecnologia de ponta. Segundo ele, em 2019, 31% do faturamento da Embraer foi proveniente de produtos relacionados à inovação.

A inovação é uma das prioridades que, ao longo do tempo, foi incorporada à cultura da Embraer por meio de várias ações. De uma maneira mais formal, em 2012, a empresa criou a área de cultura de inovação para incentivar alguns comportamentos, por meio de programas de mentorias, novos conhecimentos, programa de intraempreendedorismo, entre outras iniciativas.

“Esta área começou a ganhar relevância dentro da empresa e, então, virou uma diretoria e depois uma vice-presidência de inovação, transformação digital e de novos negócios”, conta Thiago Yamabuchi.

Liderança engajada

Uma característica marcante é o comprometimento e o apoio da liderança da Embraer à cultura de inovação. “A gente entende que cultura é uma junção de comportamentos das pessoas e de alguns símbolos muito fortes que são dados pela liderança. Por isso, a cultura só pode ser modificada de cima para baixo. A liderança tem de mudar primeiro para depois levar isso para toda a equipe”, acredita Thiago.

Para manter os executivos sempre bem informados sobre inovação, a Embraer possui uma iniciativa para levá-los com determinada frequência para eventos, pitchs e visitas em empresas dentro e fora do Brasil.

Inovação além do departamento

Outro diferencial é que a inovação não está restrita a um departamento específico que produz soluções incríveis o tempo todo. “Quando você tem uma área de inovação na empresa, geralmente, acaba ficando implícito que as outras áreas não inovam. Isso é um grande problema”, analisa Thiago. “Queremos que todos os colaboradores se sintam com poder e capacidade de inovar”.

Por isso, ele explica, a área de inovação da Embraer atua nos “bastidores”, com foco em criar processos para dar suporte para os demais departamentos. “Fornecemos os processos para que os outros colaboradores brilhem e façam a inovação acontecer”, conta Thiago. “Hoje, inclusive, muitos funcionários se sentem trabalhando com inovação sem necessariamente serem da área de inovação”, completa.

Visão empreendedora

A área de inovação criou, por exemplo, o programa de intraeempreendedorismo, que hoje é uma frente importante na Embraer. Funciona assim: qualquer funcionário que tiver uma proposta de inovação tem, imediatamente, 20% do seu tempo para se dedicar ao desenvolvimento da solução. Além disso, a companhia dá suporte financeiro. O processo é estruturado – envolvendo várias fases e desafios – e, em geral, leva cerca de um ano para sair do papel e se tornar uma realidade.

“A expectativa com o programa de intraempreendedorismo é que o colaborador consiga quebrar alguns padrões, elaborando projetos que tragam novos produtos ou processos para a companhia”, conta Thiago.

Ele cita como exemplo a iniciativa de um colaborador da área financeira da Embraer que sugeriu a criação de um fundo de investimento focado em startups (ou Corporate Venture Capital – CVC). O projeto seguiu várias etapas, foi aprovado e hoje existe um CVC na companhia. “São vários os ganhos que temos com as iniciativas do programa de intraempreededorismo, elas ajudam a trazer receita e negócios para a empresa”, acredita Thiago.

Girando a roda da inovação

Para estimular o clima de inovação, todas as unidades da Embraer ao redor do mundo possuem espaços de coworking, para que o colaborador possa trabalhar nas suas atividades cotidianas ou desenvolver o projeto de intraempreendedorismo, por exemplo.

Outro fator que ajuda a roda da inovação girar na Embraer é o rigor intelectual. “Aqui os funcionários se dedicam bastante à questão do conhecimento. Temos muitos colaboradores com mestrado, doutorado e pós-doutorado”, conta Thiago.

Segundo ele, as metodologias ágeis foram incorporadas desde 2018 pela companhia e também têm colaborado para esse cenário inovador.

Parceria crescente com as startups

Apostar na inovação aberta é uma estratégia cada vez mais adotada pelas grandes companhias. Há cerca de quatro anos a Embraer vem evoluindo nessa questão e, atualmente, possui quatro frentes de trabalho com as startups:

  1. Dois fundos de investimentos voltados para startups (CVC), um no Brasil e outro nos Estados Unidos;
  2. Programa de aceleração tecnológica, direcionado para startups em estágio inicial;
  3. Embraer Start Program, voltado para startups que já têm soluções desenvolvidas;
  4. Embraex, divisão da Embraer dedicada ao desenvolvimento de soluções baseadas em inovações disruptivas. O grande projeto desta área é o chamado “carro voador”, feito com conjunto com a Uber; a expectativa é que o lançamento aconteça em cerca de dez anos para apoiar a mobilidade urbana.

Considerando essas quatro iniciativas, em 2019, cerca de 50 startups – desde aquelas com soluções para o cotidiano das operações até aquelas que trabalham com tecnologia de ponta – foram engajadas de alguma forma e estão trabalhando com a Embraer.

Para chegar a essa estrutura, a empresa precisou aprender como trabalhar com o universo das startups. Em 2016, foi buscar conhecimentos no Vale do Silício e passou a se aproximar de universidades, empresas e especialistas. As lideranças da empresa também foram levadas para lá a fim de entenderem de perto as especificidades desse tipo de negócio.

“Trabalhar com startups é algo diferente, é sério e tem uma dinâmica completamente diferente do que a gente conhecia”, comenta Thiago.

Esse aprendizado gerou frutos, tanto que a área liderada por Thiago mudou o processo para a contratação de startups no Brasil, que antes entrava no processo convencional de compras e levava de três a cinco meses para sua efetivação. “Tivemos um caso em que quando fomos contratar a startup, ela não existia mais”.

A partir daí, nasceu o Embraer Startup Program, com o objetivo de democratizar o uso das startups dentro da companhia. Foi criado uma espécie de banco de dados para que todas as áreas tenham visibilidade das startups aptas a trabalhar para a companhia. Em paralelo, foi elaborado um processo que possibilita contratar uma startup em apenas cinco dias.

“É uma forma de trazer as competências que a Embraer precisa de uma forma rápida”, afirma Thiago. “A gente entende que existem soluções que não dependem da área de inovação, cada departamento pode contratar diretamente uma startup se isso fizer sentido para ele”.

Outra iniciativa que envolve as startups são os hackatons promovidos pela Embraer. “Esse tipo de iniciativa gera projetos relevantes e que trazem resultado, eles fazem a diferença para a empresa”, destaca.

Lições de inovação da Embraer

aviao legacy da embraer

Thiago Yamabuchi compartilhou alguns aprendizados importantes da Embraer quando o assunto é inovação:

Construir uma cultura forte de inovação – Para isso, é preciso estabelecer objetivos claros e definir como dar suporte a qualquer iniciativa de inovação. “Algumas empresas têm uma cultura que vai contra a cultura de inovação. É o caso, por exemplo, daquelas que têm foco apenas em cortar custos”, avalia Thiago. Ele ressalta, ainda, que essa transformação cultural não acontece rapidamente, mas leva vários anos. “É uma jornada, um processo que vai melhorando aos poucos”.

Ter apoio da liderança – A cultura de inovação deve ser construída com total apoio da alta diretoria da empresa. “Uma pessoa sozinha, mesmo com boas ideias e vontade de fazer, não consegue inovar se não tiver apoio da liderança”, acredita.

Enxergar a área de inovação como uma área de processos – A área de inovação deve ter foco em criar os processos necessários que vão dar suporte para as diferentes frentes de inovação.

Respeitar o trabalho das startups. “Vejo muitas empresas pedindo Prova de Conceito (POC) ou projeto piloto para uma startup, mas sem intenção de contratá-la. Se todo mundo fizer isso, a startup quebra e assim não dá para suportar o ecossistema”, alerta Thiago. Por isso, ele recomenda como boa prática solicitar uma POC ou MVP para uma startup apenas quando já tiver dinheiro em caixa para fazer a contratação. “As pessoas se conhecem nesse ecossistema e, por isso, é preciso estabelecer boas relações tanto para as empresas quanto para as startups”, conclui Thiago Yamabuchi.

Fotos: Divulgação Embraer

Leia também

Terceiro Conexão Tech destacou as empresas que nadam na tecnologia

Tags

Send this to a friend