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Entrevista: Lucas Foster fala sobre economia criativa e Indústria 4.0

O crescimento da automação e da aplicação das tecnologias disruptivas nos negócios exige, cada vez mais, um novo olhar para a formação de talentos, com foco nas habilidades técnicas, ou hard skills. Isso é fundamental para o desenvolvimento de uma nova economia pautada pela economia criativa e Indústria 4.0. No entanto, o Brasil ainda tem um déficit de profissionais com perfil técnico, que poderiam criar as inovações necessárias para o País se destacar globalmente.

Quem faz essa reflexão é Lucas Foster, psicólogo e especialista em criatividade e economia criativa. Em entrevista ao Portal de Notícias da GS1 Brasil, ele propõe a união da criatividade e da tecnologia para preencher a lacuna de competências profissionais para apoiar o desenvolvimento do País. Além disso, destaca que, nas empresas, a área de RH tem papel estratégico nesse contexto de revolução digital.

Desde 2010, Lucas Foster lidera programas de educação empreendedora e liderança criativa em parceria com organizações nacionais, internacionais e agências da Organizações das Nações Unidas (ONU).  Ele é idealizador do Prêmio Brasil Criativo, reconhecido como a premiação oficial da Economia Criativa brasileira pelo Ministério da Cultura, com o apoio institucional da Unesco. Além disso, é diretor global de formação de lideranças do Dia Mundial da Criatividade, que Lucas criou em 2014 e que se tornou a data oficial para celebrar a criatividade em todo o mundo, reconhecido pela ONU em 2017.

Recentemente, Lucas Foster participou do 2˚Summit Educação e Carreira, promovido pela GS1 Brasil. Acompanhe, a seguir, os principais momentos do bate papo com o especialista.

lucas foster do lab criativo

Lucas Foster, especialista em economia criativa

Qual é a relação entre economia criativa e Indústria 4.0?

A economia criativa é um conceito que reúne um conjunto de setores que tem a criatividade como matéria-prima. Ou seja, é a partir da criatividade que se gera valor e se conquista clientes. A economia criativa está muito associada à dimensão simbólica que agrega valor a produtos e serviços. Na gastronomia, os chefs de cozinha são aqueles que adicionam valor intangível, a dimensão simbólica, à indústria de alimentos. Na construção civil, o arquiteto é que gera valor intangível a uma obra. No caso da indústria têxtil, o estilista e o designer geram valor intangível através da moda. Então, muitas das empresas associadas à GS1 potencializam seus negócios através dos setores e profissionais criativos. Agora, a gente está vivendo um processo de revolução digital que tem mudado a maneira como as pessoas consomem esses produtos e serviços. Então a Indústria 4.0 passa a influenciar a economia criativa.

De que forma isso acontece?

A importância da Indústria 4.0 para o desenvolvimento de uma nova economia criativa está relacionada à curadoria e a experiência do usuário, através da Inteligência Artificial, que pode abrir novas oportunidades para os empreendedores e também para aqueles consumidores que buscam algo diferente.

Nas plataformas de tecnologia, o processo de recomendação de produtos e serviços através de uma base de dados ou de um acompanhamento sobre aquilo que o usuário tem mais interesse, é uma mudança de paradigma, porque abre espaços para uma curadoria automatizada, vamos dizer assim. Quando uma pessoa consome obras audiovisuais no Netflix e tem um determinado padrão de comportamento e de consumo, a plataforma do Netflix recomenda, através de seus mecanismos de Inteligência Artificial, outras obras que, muitas vezes, seriam desconhecidas do grande público e que abrem espaço para novos talentos.

Na sua avaliação, as empresas estão conseguindo unir esses dois aspectos – Indústria 4.0 e economia criativa – ou ainda enfrentam dificuldades?

As empresas ainda ficam um pouco presas às agências. Elas acreditam que uma agência de marketing ou de inovação deve resolver para ela, mas, na verdade, é uma mudança de prioridades dentro da organização e também uma mudança do conjunto de competências da empresa, que deve incorporar profissionais com novas habilidades. Mas, muitas vezes, as empresas ainda não sabem como preencher essa lacuna de competências.

A área de RH, na minha opinião, é a mais estratégica num processo de transformação digital e desenvolvimento de novas experiências de consumo para o cliente final, porque é a partir do RH que vai se preencher a lacuna de talentos. Os líderes já percebem essa mudança que, às vezes, parece algo pontual, mas na verdade faz toda a diferença quando a gente fala de consumo online.

Nesse contexto, quais são as habilidades mais importantes que os profissionais devem desenvolver?

Hoje se fala muito da importância de se desenvolver as soft skills.  Mas, neste momento, o gargalo que o Brasil vive é de profissionais que tenham as habilidades técnicas, as hard skills, para inserir as empresas dentro da Indústria 4.0. A gente está falando de cientistas de dados e pessoas que dominem tecnologias como Machine Learning, por exemplo, e isso ainda é um volume pouco expressivo de pessoas que se formam nas universidades públicas e privadas. Muitos profissionais vêm de outros cursos, como Engenharia, mas ainda são tão raros que as empresas não sabem como preencher esse gargalo. É um problema de visão estratégica de longo prazo.

Depois dessa pandemia e com a chegada do 5G, a gente vai sofrer um apagão de profissionais capazes de produzir valor através das tecnologias de infraestrutura. Não teremos a capacidade de produzir esses ‘unicórnios’ da era do IoT ou do hardware, porque estamos muito presos ao modelo de unicórnios de serviços de aplicativos. Do ponto de vista de IoT e de Inteligência Artificial estamos bem atrasados.

E como fica o desenvolvimento das soft skills?

Elas são fundamentais, mas vejo uma discussão sobre as soft skills no Brasil como se a gente tivesse fadado a ficar de fora das hard skills da Indústria 4.0, algo do tipo: ‘já que o Brasil não vai ser um player dessa nova Indústria 4.0, vamos aprimorar nossas soft skills que é o que vai sobrar pra nós’.

A gente não pode achar que a Suécia, o Canadá, a Índia vão suprir a demanda de talentos de hard skills da Indústria 4.0 e que o Brasil precisa ter somente soft skills. Eu acho que está chegando a hora de entender que soft skills são fundamentais, que o brasileiro é melhor em soft skills que outros países como a Dinamarca e a Alemanha, mas o nosso problema hoje é de hard skills. Aliás, vejo a GS1 como protagonista dessa nova geração de talentos técnicos de hard skills.

Essa discussão acontece porque o brasileiro é reconhecido pela sua criatividade, certo?

O brasileiro é muito criativo e esse é a razão pela qual empresas multinacionais possuem centros de pesquisa e desenvolvimento no Brasil num volume muito maior do que em outros países. É muito interessante ver que no Brasil, mesmo com todas as dificuldades, se produz ciência e pesquisa com muita qualidade. E, na minha avaliação, isso é baseado nessa matriz criativa que o Brasil tem. Só que, neste momento, essa criatividade precisa encontrar ferramentas técnicas para propor inovações globais capazes de inserir o Brasil na Indústria 4.0.

Qual é a sua orientação para as empresas avançarem nessas questões, tendo em vista as necessidades da Indústria 4.0?

A coisa mais importante quando a gente fala de uma grande empresa, é que ela não pegue atalhos, que ela não se perca na velocidade das transformações e faça investimentos apenas em soluções rápidas. A parceria das empresas com as universidades de excelência ainda é a solução mais consistente para o desenvolvimento de tecnologias. As grandes empresas não podem desistir das universidades. Vimos nessa pandemia como elas são fundamentais. Então, o primeiro passo é estar ainda mais conectado com as universidades e, num segundo momento, fazer uma revolução da área de gestão de pessoas, engajando os colaboradores e incorporando competências que façam sentido nessa nova fase.

E qual é a dica para as empresas menores?

As empresas menores precisam trabalhar em colaboração. Eu acho que pertencer a uma comunidade, a uma associação, a uma entidade ou a grupo de empresários, que podem se reunir até mesmo num grupo de WhatsApp, além de fortalecer a rede de contatos, também é uma oportunidade de troca de conhecimento. Hoje você tem uma série de oportunidades de baixo custo para aprimorar o seu desenvolvimento. Para as pequenas empresas, o desafio tem de partir da liderança, que precisa guardar tempo para o seu próprio desenvolvimento e para incentivar o desenvolvimento dos colaboradores. Se uma pequena empresa fica focada somente na sua sobrevivência, o que é muito comum num momento de crise, ela pode perder esse momento. Mesmo na turbulência, o piloto precisa ter um tempo para consultar o manual.

Você está envolvido em vários projetos de economia criativa e inovação. Poderia contar um pouco sobre essas iniciativas?

Temos o trabalho do LabCriativo, que é um portal de educação para criatividade que traz uma série de reflexões e conteúdos para que as pessoas possam aprimorar a sua sensibilidade em relação à criatividade. A gente acredita que, apesar da criatividade ser a matéria-prima da inovação, ela é um processo decorrente de uma forma de pensar e agir no mundo. Então, dependendo da postura que você tem, o contexto em que vive e a maneira como interage com as outras pessoas, você é capaz de enxergar soluções onde outros enxergariam problemas.  O Lab Criativo tem também um aplicativo onde as pessoas podem consumir conteúdos que ajudam a sair do lugar comum, a desenvolver visão crítica e, assim, adotar o mindset de criatividade.

Além disso, o LabCriativo promove duas ações anuais. No primeiro semestre, realiza o Dia Mundial da Criatividade, que nasceu em 2014 no Brasil e, em 208, aderiu ao Dia Mundial da Criatividade e Inovação estabelecido pela ONU. A partir daí, escalamos esse evento para várias cidades brasileiras através de líderes criativos que trabalham com educação e tecnologia. Neste ano, essa iniciativa ganhou uma versão 100% digital um mês após a declaração de pandemia pela OMS. A gente teve essa velocidade de fazer a transição de um evento que acontecia em 115 cidades para dento de um aplicativo proprietário.

No segundo semestre, promovemos o Prêmio Brasil Criativo, que é a premiação oficial da economia criativa brasileira e que, em 2014, recebeu a chancela do Ministério da Cultura e, em 2016, passou a ter o apoio institucional da Unesco. Esse projeto tem o patrocínio da 3M, que é uma referência global de inovação. O prêmio é bianual, então lançamos as inscrições nos anos ímpares e apresentamos os vencedores para a sociedade nos anos pares.

Em 2020, lançamos o documentário Brasil Criativo.doc, que está disponível no YouTube e que narra a história dos 12 vencedores da última edição do prêmio. Em 2021, vamos lançar as inscrições para quem quiser concorrer à quarta edição do Prêmio Brasil Criativo.

 

Depois de um ano tão difícil, que mensagem você deixa para as empresas para 2021?

A mensagem que eu gostaria de deixar é que eu conheço muito do ecossistema de inovação no Brasil e a GS1 tem um papel fundamental nesse ecossistema e na formação de talentos dessa nova economia da Indústria 4.0. As empresas associadas à GS1 devem buscar cada vez mais soluções junto aos profissionais e às empresas da economia criativa. Existem muitas respostas e soluções inovadores sendo produzidas na economia criativa e que podem ser incorporadas pelas indústrias tradicionais.

Fotos: Divulgação

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