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Histórias que Inspiram: agricultores de Quatinga se unem na pandemia

A última semana de março de 2020 foi muito difícil para os pequenos agricultores do distrito de Quatinga, em Mogi das Cruzes (SP), região produtora de itens como alface, agrião, rúcula, coentro, couve, tomate e cogumelos. Com o fechamento das feiras, restaurantes e da Ceagesp – por conta do isolamento social necessário para o combate à Covid-19 – em apenas uma semana, as vendas caíram mais de 80%.

“De repente não tínhamos para quem vender a nossa mercadoria. Ficamos em pânico, desolados, absolutamente sem saber o que fazer. Choramos muito”, conta a produtora rural Simone Silotti.

Com os canteiros lotados, a primeira solução para evitar ainda mais prejuízos aos negócios seria jogar fora toda a produção. Isso porque o custo estimado para finalização, ou seja, colher, embalar e transportar a mercadoria, representa quase 40% do custo total do pequeno produtor rural.

Mas Simone – proprietária do Quintal Coruja, que produz alface, agrião e rúcula pela técnica de hidroponia – não teve coragem.

“Fui conversar com meus vizinhos produtores e todos estavam tão desolados tanto quanto eu. Pedi então que não derrubassem a mercadoria e me dessem a oportunidade de encontrar uma solução”. Chorando, ela voltou para a casa a fim de tentar resolver a questão.

“Duas horas depois eu estava no computador fazendo a vaquinha virtual dos produtores de Quatinga. Falei com alguns amigos que ajudaram a divulgar, inclusive a GS1 Brasil. A partir daí, as pessoas começaram contribuir”.

propriedade rural quinta da coruja em quatinga sp

Propriedade rural Quintal da Coruja, em Quatinga – Foto: Divulgação

A vaquinha virtual foi uma maneira de receber algum apoio financeiro. E funcionou. Mas o que fazer com a grande quantidade de alimentos nos canteiros? “Conversando com alguns produtores, disse para não jogarem nada fora porque faríamos uma doação”, relata Simone.

Rapidamente, a produtora fez um levantamento de comunidades, instituições e bancos de alimentos na Região Metropolitana de São Paulo que poderiam receber cerca de 1 tonelada de produtos. No dia seguinte, os produtores começaram a fazer as entregas. “Foi incrível”, afirma.

A notícia começou a se espalhar pela região e ganhou notoriedade na mídia. “Depois de ler uma matéria na Folha de S. Paulo, o presidente da Fundação do Banco do Brasil entrou em contato comigo. Ele entendeu a nossa dor, compreendeu as nossas dificuldades e a entidade fez a doação de R$ 1 milhão para os produtores de Quatinga. O recurso chegou em 12 dias.  Com isso, conseguimos abraçar também uma produtora de shimeji de Quatinga e os produtores de Jundiapeba, que é uma comunidade de agricultura familiar”, comemora Simone. “Foi gigante a generosidade e a empatia da alta direção da Fundação do Banco do Brasil em relação às nossas necessidades”.

Assim, a iniciativa que começou com três agricultores, já reúne quase 80 produtores conseguindo escoar praticamente 100% da produção.

Segundo Simone, com o apoio da Fundação do Banco do Brasil e de outras empresas que passaram a ajudar, os produtores estão conseguindo manter a estabilidade econômica, sem demissões e continuam a semear. Ela também destaca o apoio da PariPassu e da GS1 Brasil, que auxiliaram com conexões importantes.

Em paralelo, a vaquinha virtual também está ajudando bastante. “A gente remunera os produtores a um preço mínimo que definimos para dar continuidade ao processo”, conta Simone.

Ação social

Os produtores de Quatinga e Jundiapeba conseguiram um meio para continuar seus negócios e, ao mesmo tempo, ajudar quem precisa de alimentos nesta crise. Até o momento, já doaram 9 toneladas de frutas, legumes e verduras (FLV) para comunidades e bancos de alimentos.

Os produtores se organizaram de modo de combinar o recurso disponível com as necessidades das pessoas que recebem as doações. Com o investimento do Fundação do Banco do Brasil, por exemplo, o grupo de agricultores constituiu uma cesta básica com vários alimentos, como arroz, açúcar, feijão, 60% de FLV e shimeji. “Muitas pessoas que, talvez, nunca tiveram a oportunidade de experimentar shimeji vão conseguir comer pela primeira vez”, comenta Simone.

Já a empresa Yara, fabricante de nutrientes para agricultura, está patrocinando a feira de 8 mil famílias da comunidade de Caboré pelo período de um mês. A Braskem também está apoiando o projeto.

Aprendizados

De acordo com Simone, são várias lições aprendidas nessa crise. “Para mim, é não deixar a esperança morrer, em qualquer circunstância e adversidade. Minha dor como empresária, que precisava mandar derrubar a produção para evitar prejuízos, era muito grande. Outro ponto importante é que, quando a sua dor for muito grande e mais pessoas sentirem a sua dor, trabalhe em conjunto, esqueça a sua e passa e a pensar no coletivo. Foi o que fiz naquele momento”.

Além disso, toda essa situação reforçou a luta para combater o desperdício de alimentos no campo. “Não faz sentido jogar fora toneladas de alimentos.  O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam alimentos no mundo, segundo a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura]. Nós precisamos atuar, não podemos deixar que isso continue assim”.

Estimular a alimentação saudável é outra bandeira que Simone quer reforçar. “A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda que todo cidadão se alimente com, pelo menos, cinco porções de frutas, verduras e legumes por dia. Mas, segundo o IBGE, nos orçamentos das famílias brasileiras, de modo geral, essa meta não é atingida em nem 10%. Neste momento de Covid-19 temos que nos alimentar melhor”, ressalta.

Próximos passos

Simone acredita que até agosto deste ano não será possível retomar a estabilidade econômica dos produtores de Quatinga e Jundiapeba. Por isso, é preciso continuar buscando o apoio das empresas.

Para quem quiser contribuir com a iniciativa, as doações podem ser feitas, como pessoa física ou jurídica, comprando diretamente dos produtores ou através da vaquinha virtual dos Agricultores de Quatinga, com doações a partir de R$ 20.

O grupo de produtores informa na página da vaquinha virtual as entidades e comunidades já beneficiadas com as doações de alimentos.

Também é possível que as empresas que quiserem doar direcionem a contribuição para alguma instituição ou comunidade específica. Os produtores fazem a entrega desde que seja na Região Metropolitana de São Paulo, área onde atuam.

“O investimento das empresas é baixíssimo porque a compra está sendo feita diretamente com o produtor rural. Fazemos tudo de forma organizada, articulamos com o líder da comunidade que sabe o dia e a hora da entrega, distribuindo sem tumulto com todo o controle necessário em função da Covid-19, seguindo o protocolo de segurança”, ressalta Simone.

E, assim, depois dos momentos iniciais de desespero, surge esperança para ampliar o projeto. “Estou muito feliz servindo de experiência para outros empresários que estão nos procurando e se prontificando a colaborar conosco. Eu queria que esse projeto fosse maior, que envolvesse também os produtores do Alto Tietê”, projeta Simone.  O distrito de Quatinga fica na região do Alto Tietê, que tem na agricultura um dos seus pontos fortes, formando o “cinturão verde” responsável pelo abastecimento da capital paulista e de outras regiões do País.

Assista ao vídeo sobre a ação dos produtores rurais de Quatinga na pandemia

Histórias que Inspiram

Com rapidez e criatividade, os produtores de Quatinga combinaram em uma única iniciativa a garantia de sobrevivência econômica com uma ação social. Assim como eles, nesta pandemia causada pela Covid-19, muitas empresas estão dedicando esforços para dar continuidade aos negócios com soluções inovadoras.

Para mostrar projetos positivos como este, a GS1 Brasil lança a série “Histórias que inspiram”, trazendo exemplos de quem está fazendo a diferença nesta pandemia, servindo de inspiração para outros empresários.

Para participar, basta enviar a sua história para o e-mail: noticias@gs1br.org

Foto de abertura: Getty Images

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