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Humanidade e inteligência artificial na visão de Tim Lucas

Como unir o potencial da tecnologia com empatia e sensibilidade humana para criar soluções que atendam aos desejos das pessoas? Com uma visão antropológica sobre a humanidade e a inteligência artificial (IA), o PhD em antropologia e líder de negócios da escola sueca de inovação Hyper Island, Tim Lucas (foto), fez a palestra de encerramento do Brasil em Código – Conferência Internacional da GS1 Brasil, realizada em junho de 2019 pela entidade.

No seu dia a dia, ele estuda o comportamento das pessoas e ajuda várias marcas a traçarem suas estratégias. Com base nessa experiência, o antropólogo inglês – que vive no Brasil há quase uma década – ressaltou que, cada vez mais, quando se fala em inovação, é fundamental contar com a diversidade de pessoas para resolver problemas nas empresas. “Precisamos de visões diferentes”, afirmou.

No entanto, qual é a diferença do olhar humano e o olhar da IA? Tim fez um rápido teste com a plateia, mostrando a cena de uma criança deitada no chão de uma loja. Ele contou que a imagem foi submetida à avaliação de algumas soluções de IA, que indicaram como uma cena de patinação no gelo ou de uma performance de um grupo de pessoas.

Mas a história por trás da foto é bem diferente. O garoto em questão tem autismo e estava deitado no chão de uma loja da rede de supermercados Asda, na Inglaterra. Os portadores da doença não se sentem bem com ruídos altos, por isso, o menino começou a ter uma crise e se jogou no chão. A partir dessa situação, a empresa se sensibilizou e foi entender a questão do autismo. Passou a se conectar às famílias que convivem com autismo e doenças mentais. Assim, em co-criação com a comunidade, a Asda lançou a “Hora do Silêncio”, momento em que música, anúncios de ofertas e todos os sons da loja são desligados, tornando a experiência de compra dos autistas e suas famílias mais tranquila e agradável.

“A Asda fez a estratégia do oceano azul e encontrou uma grande oportunidade”, disse Tim, citando que a ideia foi copiada por outras redes de supermercados europeias. “A inovação é baseada em problemas que, muitas vezes, estão invisíveis. Inovar é projetar o futuro e como melhorar a vida das pessoas. Somente os humanos podem imaginar o que ainda não foi visto. Não estou criticando a IA, mas o ser humano entende o desejo do outro e isso é fundamental nas empresas. Senão, de que forma será possível levar os consumidores a um lugar diferente?”, questionou.

Inclusão como estratégia inovadora

Com base nesse exemplo, Tim ressaltou a necessidade de as empresas pensarem em inclusão. “As inovações começam nos extremos. Quem está no limite questiona muito mais do que quem vive numa situação normal”.

Por isso, o conceito de design inclusivo está em alta. “A Microsoft é exemplo disso, fez um controle de Xbox para pessoas que não tem dedo. E a IKEA criou uma linha de móveis e objetos de decoração para resolver problemas para quem tem algum tipo de deficiência física ou motora, como paralisia cerebral”, contou o palestrante.

No projeto da IKEA, chamado Trisables, a empresa promoveu um hackaton e ouviu pessoas com problemas de acessibilidade para co-criar produtos como um protetor anti-impacto para cadeiras de roda e interruptores capazes de ligar a luz sem usar os dedos. A iniciativa, que começou com o objetivo de atender um grupo com necessidades específicas, conquistou uma gama maior de consumidores. “Isso mostra a importância de observar, de ser curioso, de ter empatia. Esse é o tipo de coisa que a IA não faz tão bem quanto o ser humano. Mas o ser humano também tem problemas”, afirmou.

Segundo ele, para inovar é preciso resgatar o mindset das crianças, que não têm medo de errar, são curiosas, têm empatia. “Gosto do conceito de humanidade aumentada, que está apoiado na inteligência emocional (IE). Como seres humano, temos a capacidade de IE e precisaremos treinar isso, questionar mais. Não tenha medo da IA, mas é necessário entender em que momentos a IE vai ajudar nos negócios e em quais situações a IA é que vai nos apoiar. Em qual ocasião precisaremos de uma máquina trabalhando junto conosco? Cada vez mais estamos aprendendo sobre IA, machine learning, data science e outras tecnologias, mas também estamos aprendendo mais sobre nós mesmos”, concluiu Tim Lucas.

 

Foto: Jair Leite

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