O agro brasileiro produz alimentos, fibras, energia e divisas.
Agora, precisa produzir também uma coisa que não se vê na lavoura, mas pesa cada vez mais na negociação: informação confiável.
É esse o centro do debate do Agro em Código 2026, summit de rastreabilidade promovido pela GS1 Brasil, que será realizado em 27 de outubro, no Cubo Itaú, em São Paulo.
A proposta é direta: discutir como dados de origem, produção e circulação podem transformar pressão regulatória em competitividade.
Não se trata apenas de plantar, colher e exportar.
O caminho entre a fazenda e o consumidor está mais exigente.
Compradores querem saber de onde veio. Investidores procuram evidências.
Reguladores pedem comprovação.
E o consumidor, mesmo distante do campo, quer entender o que há por trás da embalagem.
Em outras palavras: a produtividade continua decisiva, mas já não viaja sozinha.
Uma saca de café, um corte de carne, uma barra de chocolate ou um lote de soja podem atravessar oceanos.
Para chegar a determinados destinos, porém, terão de levar muito mais do que qualidade e volume: precisarão carregar uma história verificável.
É a lógica por trás de regulações como a EUDR, norma da União Europeia voltada a produtos associados ao desmatamento.
A medida alcança cadeias como soja, carne bovina, café, cacau, madeira, borracha e derivados.
Na prática, exportadores precisarão demonstrar que os itens comercializados não estão ligados ao desmatamento posterior à data de corte definida pela legislação.
Isso inclui organizar evidências sobre área de origem, fornecedores, movimentação, processamento e informações socioambientais.
A sustentabilidade, portanto, deixa de caber apenas no discurso institucional.
Ela precisa aparecer nos dados.
É como trocar uma declaração de boas intenções por uma pasta organizada de comprovantes: acessível, atualizada e capaz de responder às perguntas de quem compra, fiscaliza ou financia.
O desafio tem impacto direto sobre o Brasil.
Segundo o Cepea/Esalq-USP, o agronegócio representou 23,2% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2024.
Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que o setor respondeu por cerca de 49% das exportações do país em 2025.
Quase metade do que o Brasil vende ao mundo, portanto, passa por cadeias que tendem a ser cada vez mais cobradas por transparência, conformidade ambiental e capacidade de comprovação.
Ao mesmo tempo, a demanda global por alimentos continua em expansão.
Projeções da OCDE-FAO indicam crescimento de cerca de 14% na produção mundial de alimentos até 2034, principalmente por ganhos de produtividade.
A oportunidade brasileira está justamente na combinação entre escala, inovação e informação.
O país reúne agricultura tropical avançada, centros de pesquisa, produtores tecnificados, startups e uma ampla diversidade de cadeias produtivas.
O próximo passo é fazer esses dados conversarem.
Porque uma informação que fica presa em uma planilha, em um sistema isolado ou na memória de uma única empresa perde força quando precisa acompanhar o produto por toda a cadeia.
A rastreabilidade é a ponte entre o que acontece na origem e o que precisa ser comprovado no destino.
Ela permite acompanhar um produto em diferentes etapas, da produção ao processamento, do transporte à prateleira.
Mas rastrear não é simplesmente acumular dados.
É garantir que a informação seja identificada, registrada, compartilhada e compreendida por diferentes participantes.
Nesse ponto, entram os padrões GS1.
Eles ajudam a criar uma linguagem comum entre campo, indústria, logística, varejo e consumidores.
Um produto identificado de forma única pode ser reconhecido por sistemas distintos, reduzindo ambiguidades, retrabalho e falhas na troca de informações.
O resultado é uma cadeia mais preparada para responder a uma dúvida cada vez mais frequente: “prove”.
Com tecnologias como o QR Code Padrão GS1, a embalagem pode funcionar como uma porta de entrada para dados sobre origem, lote, certificações, práticas produtivas e características do produto. Para o consumidor, é uma consulta simples pelo celular.
Para as empresas, é uma oportunidade de conectar operações físicas e digitais.
É nessa encruzilhada entre regulação, inovação e mercado que o Agro em Código 2026 se apresenta.
O evento reunirá representantes de startups, produtores, cooperativas, agroindústrias, empresas de tecnologia, logística, varejo, universidades e centros de pesquisa.
A programação prevê debates sobre rastreabilidade, demandas do consumidor, ESG, sustentabilidade e tecnologias aplicadas ao agronegócio.
Entre os palestrantes confirmados estão Estevan Sartoreli, cofundador da Dengo Chocolates; Matheus Ferreira Pinto da Silva, diretor executivo do Instituto CNA; Lucio Vicente, diretor executivo do Instituto Akatu; e Cecilia Seravalli, gerente de ESG da Nestlé.
A variedade de perfis ajuda a mostrar que a transformação não depende de um único elo.
A informação nasce no campo, mas precisa circular por toda a cadeia sem perder contexto, precisão ou credibilidade.
Não existe rastreabilidade robusta se produtor, indústria, transportador, varejista e fornecedor de tecnologia trabalham cada um em seu próprio idioma.
A edição de 2025 do Agro em Código reuniu 333 participantes, entre público presencial e online, além de 19 painelistas e dois patrocinadores.
O encontro marcou também os 40 anos da Embrapa Agricultura Digital, referência na aplicação de ciência e inovação ao campo.
Participaram dos painéis especialistas de organizações como Embrapa Agricultura Digital, FGV Agro, Serpro, Suzano, Itaú BBA, ABIOVE, Imaflora, Itamaraty, MBRF, Cubo Itaú, Rever, MarvinBlue e Usina Granelli.
Na agenda, temas que já deixaram de ser previsão: inteligência artificial, blockchain, financiamento verde, adequação à EUDR, transparência nas cadeias e desafios de setores como pecuária, cacau, soja, papel e celulose.
O sinal é claro.
A rastreabilidade no agro já não ocupa apenas a área de conformidade.
Ela avança para a estratégia comercial, a gestão de riscos, o relacionamento com o consumidor e o acesso a capital.
O futuro do agronegócio brasileiro não será definido somente pela capacidade de produzir mais.
Será definido, também, pela capacidade de demonstrar como se produz.
Isso exige tecnologia, mas não se resume a tecnologia.
Exige governança, integração, padrões e colaboração entre empresas, produtores, poder público, ciência e mercado.
O Agro em Código 2026 abre espaço para esse debate em um momento decisivo.
Afinal, na nova geografia do comércio agrícola, não basta o produto chegar longe.
Ele precisa chegar acompanhado de informações que inspirem confiança.
E confiança, no agro de agora, também se cultiva.
Inscrições para o Agro em Código 2025 estão disponíveis aqui. Clique aqui para acessar.
Crédito das fotos: iStock
O agro está mudando e o dado virou parte da colheita